Conheci Aníbal Ford, em Porto Alegre, em junho de 1992, quando interrompi uma pesquisa de campo que fazia no Rio de Janeiro sobre a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento enquanto mega ritual de integração de elites políticas transnacionais. Comparecemos, ambos, ao IX Seminário de Estudos Latino Americanos do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e do
Consejo Latino Americano de Ciencias Sociales - CLACSO. Interessamo-nos imediatamente pelo trabalho um do outro. Era o auge da discussão sobre identidades. Chamou-me a atenção que Aníbal, famoso estudioso das comunicações, conhecia o debate melhor do que muitos antropólogos e o incluía em cenários sociológica e semiologicamente complexos. Passei a admirar aquele homem firme, de pensamento claro, intelectualmente eclético e, sobretudo, amável e instigante. A todas estas qualidades, à medida que o conheci mais, viria a juntar uma admiração por sua energia, capacidade de produção e curiosidade pelo novo que o tornavam uma liderança intelectual ímpar. Como se não bastasse tudo isso, Aníbal também era editor, escritor de ficção, um amante da natureza e grande
causeur.
Meu interesse pela internet como a base tecno-simbólica da comunidade transnacional-imaginada virtual certamente contribuiu para que continuássemos nossos diálogos e intercâmbios pessoalmente ou por
email. Afinal, passei algum tempo trabalhando com o impacto da internet na política, na construção da transnacionalidade e do espaço público virtual. Sempre que precisei de informações de textos e tendências, Aníbal era uma das principais fontes. Debatemos muito sobre minhas noções de pós-imperialismo, globalização popular e sistema mundial não-hegemônico. Suas críticas, positivas e construtivas, ajudaram a tornar meus argumentos mais claros e precisos.
Ao longo dos quase 18 anos que o conheci, muitas vezes fui a Buenos Aires, especialmente no período em que meu filho lá residiu. Em diversas ocasiões, aproveitei para visitar Aníbal em sua casa e, em longas conversas, desfrutar da sua hospitalidade mais do que argentina, regada a vinho e sempre com suculentas empanadas. O cosmopolitismo de Aníbal não ia em detrimento da sua profunda condição portenha e argentina, outra de suas facetas que me fascinava enquanto eterno aprendiz da argentinidade. Conversávamos de tudo, mas, principalmente, de projetos e tendências intelectuais e políticas. Que estávamos fazendo? O que queríamos fazer? Trocávamos textos, idéias, certezas e dúvidas. Sempre saía iluminado e contente de poder gozar da confiança intelectual e política de alguém do calibre de Aníbal cuja imaginação interpretativa não tinha limites.
Na última vez que nos vimos em sua casa, em junho de 2008, ele estava entusiasmado com o sucesso de sua última criação, a revista eletrônica
Alambre. Aníbal queria explorar a internet como meio que requeria uma linguagem própria. Queria fazer algo que aproveitasse as potencialidades da rede e não fosse um mero arremedo de outros meios. Estava particularmente feliz pela flexibilidade e repercussão internacional que a internet permitia. Levou-me ao seu computador para mostrar as estatísticas de visitas e
downloads que incluíam internautas de todos os continentes.
Ter sido convidado, desde o princípio, para fazer parte do Comitê Editorial da
Alambre e ter nela publicado, em seu primeiro número, um artigo, muito me envaidecem. A composição do comitê editorial da
Alambre é a demonstração mais clara da liderança intelectual que Aníbal exercia no plano latino-americano. Não tenho dúvidas de que
Alambre é o lugar mais apropriado para homenagear Aníbal Ford, como pessoa e intelectual. Espero que este seu projeto siga adiante para que o espaço intelectual latino-americano, já diminuído com o desaparecimento de Aníbal, não encolha ainda mais.
Alambre também é o lugar ideal para deixar uma última palavra ao amigo:
gracias, hermano, por todo!
Gustavo Lins Ribeiro
Departamento de Antropologia
Universidade de Brasília
Gustavo Lins Riveiro es profesor del Departamento de Antropología y Director del Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Brasília. Investigador del CNPq. Publicó libros en Brasil, Argentina, España, Estados Unidos e Inglaterra y cerca de 100 artículos en revistas de diversos países sobre temas como desarrollo, ambientalismo, migraciones internacionales, cibercultura, globalización, transnacionalismo. Fue presidente de la Associação Brasileira de Antropologia y facilitador de World Council of Anthropological Associations.